O que fazer quando a dor não para?

Cientificamente revisado em 05/09/2022 por

Dr. Jairo Alberto Dussán-Sarría

Pesquisador no Instituto INERVA

Novas terapias para o tratamento da dor

Quem nunca sentiu uma dor? Todos já passamos por isso! mas não quer dizer que a dor seja uma só. Cada dor é única. Cada pessoa, ao longo da sua existência, dá um sentido às experiências dolorosas, que podem estar relacionadas a lesões no corpo, ou não. Quem já sofreu a perda de um ser amado ou vivenciou eventos traumáticos, entende bem que a dor possui conotações profundas, que vão além da sinalização orgânica de um tecido machucado. A dor nos lembra nossa vulnerabilidade, toca nossa espiritualidade, pode acabar com nossa paciência, nos deixar para baixo, e nos fazer agir de maneiras insuspeitadas. Como sociedade, a dor alheia desperta sentimentos nobres de empatia e solidariedade com aquele que sofre. De forma paradoxal, a dor é capaz de despertar o melhor, e o pior da nossa essência humana. A experiência da dor é influenciada por fatores biológicos, mas também psicológicos e sociais, e deve sempre ser respeitada. E quando se estende além dos três meses, a comunidade médica a denomina como dor crônica. 

No Brasil, a dor crônica afeta cerca de 30% dos adultos, sendo a região do Sul a que apresenta a maior prevalência. Independente da sua natureza, a dor crônica onera os sistemas de saúde, tanto por aumento na necessidade de consultas, exames e intervenções, quanto pela incapacidade da retomada do trabalho, e atividades sociais. Não sendo suficiente, 50%-75% dos pacientes com dor crônica sofrem também de alguma forma de depressão e ansiedade, piorando as consequências na saúde do paciente, sua família e sua comunidade.

Como uma dor pode durar meses ou anos?

Quando ocorre uma lesão, os tecidos especializados na detecção de danos ao organismo (chamados de nociceptores) informam ao cérebro. Ele interpreta os sinais e gera uma resposta emocional e comportamental. Às vezes, quando uma lesão é repetitiva, demora para sarar, ou compromete os tecidos especializados (os próprios nervos), a sinalização para o cérebro é afetada. A sinalização errática e persistente faz com que o cérebro interprete que a lesão continua alí, deixando-o num estado hipervigilante, ao ponto de continuar gerando respostas emocionais e comportamentais contínuas, mesmo quando a lesão para de existir. Desta forma, há casos nos quais a lesão original é resolvida, mas a dor permanece contínua.

Quem pode desenvolver dor crônica?

Embora não sejam características determinantes, estudos epidemiológicos têm observado características de maior risco para desenvolver dor crônica: mulheres, obesos, idosos, dores de forte intensidade mal controladas (particularmente associadas a cirurgias de amputação, tórax, mama ou cardíacas), baixas condições sócio-econômicas, desempregados ou insatisfeitos no trabalho, tabagistas, uso abusivo de álcool, e pessoas que apresentam outras doenças (cardiovasculares, neurológicas, alterações no sono e oncológicas). A forma de lidar, mental e socialmente, com as adversidades, assim como traumatismos físicos ou emocionais na infância e adolescência, têm sido relacionados também com o desenvolvimento de dores crônicas.

Posso fazer alguma coisa para evitar o desenvolvimento de dor crônica?

A atividade física e alongamentos regulares têm demonstrado efeito na prevenção e tratamento da dor. Para pessoas que já apresentam dor, atividades adequadas para suas condições de saúde, otimizando ganhos e reduzindo riscos de novas lesões, são parte fundamental do tratamento, pois geram efeitos na modulação da dor, melhora qualidade de vida, função física, e humor. Como identificado entre os fatores de risco, manter uma atividade laboral satisfatória, que ajude a pessoa ir atrás do seu propósito, é prevenir dor crônica também. Na prevenção e tratamento da dor, devemos atuar na redução do risco nos fatores modificáveis: controle de peso, cessação do tabagismo, redução no uso abusivo do álcool, e fortalecer redes de suporte social e emocional. Para quem sofre uma dor forte (de uma cirurgia, por exemplo), evitar automedicação e procurar ajuda do especialista cedo é fundamental, pois duração e intensidade maiores estão relacionados com a cronificação da dor. Da mesma forma, quadros de sofrimento mental e traumas, insônia, ansiedade ou depressão, precisam acompanhamento com profissionais da saúde mental.

Quais alternativas existem para o controle da dor?

A dor deve ser tratada reconhecendo sua complexidade. As ferramentas clássicas, como medicamentos em altas doses com indesejáveis efeitos adversos e pobre resposta, caíram por terra. Hoje, as propostas modernas para um adequado controle da dor são multidimensionais e multiprofissionais. Os especialistas em tratamento da dor possuem formação adequada para avaliar as particularidades de cada paciente, suas características físicas, emocionais, familiares e sociais, e liderar planos terapêuticos abrangentes, trabalhando em parcerias com profissionais de diferentes áreas.
Planos terapêuticos modernos incluem:
● Medicamentos em dosagens, apresentações e vias de administração melhor toleradas.
● Intervenções específicas para deter os impulsos nervosos dolorosos (infusões endovenosas, bloqueios de nervos, infiltrações de medicamentos, cirurgias).
● Controle agressivo das alterações do sono, estratégias adaptativas, depressão e ansiedade, realizada por profissionais da saúde mental, como psiquiatras e psicólogos.
● Adequação dos hábitos alimentares conforme as necessidades de cada caso, com ajuda de nutricionistas.
● Controle das doenças co-existentes, com especialistas em cada área.
● Retorno ao trabalho e à realização de atividades físicas e alongamentos, com acompanhamento por fisioterapeutas e educadores físicos.
● Técnicas de neuromodulação, que auxiliam o cérebro e nervos periféricos, retomar um funcionamento adequado.

Quais são as novas terapias para o controle da dor?

Além do reconhecimento da necessidade de uma abordagem multiprofissional, e as abordagens intervencionistas como injeções, infiltrações, bloqueios e cirurgias, hoje contamos com as técnicas de neuromodulação cerebral não invasiva. Entendendo que todos os processos da dor transitam pelo cérebro, as técnicas de neuromodulação não invasiva, empregam a tecnologia para acessar nestas regiões, e induzir mudanças gradativas nos circuitos cerebrais alterados. Sem cortes, sem cirurgias, sem medicamentos, sem precisar de anestesia, estas técnicas induzem pequenas correntes em regiões cerebrais específicas, que gradativamente auxiliam na restauração das regiões mal-funcionantes. Dependendo das características de cada indivíduo, é possível empregar técnicas de neuromodulação cerebral não invasiva com correntes elétricas, ou através de pulsos magnéticos. São conhecidas no meio médico como estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC), e Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), respectivamente. 

Como funciona a neuromodulação cerebral não invasiva?

Dispositivos modernos, específicos para cada uso, são posicionados na cabeça do paciente, e direcionados às regiões do cérebro a serem tratadas. O paciente pode experimentar sensações que não passam de formigamento no couro cabeludo, enquanto os impulsos magnéticos ou correntes elétricas induzem mudanças relevantes no funcionamento cerebral, que ao longo das sessões, se traduzem em melhora significativa da dor. Esta modulação dos circuitos cerebrais é capaz de auxiliar não só no controle da dor, mas também em outras condições. Estudos científicos da última década demonstraram que a EMT pode também auxiliar na modulação dos circuitos cerebrais relacionados ao descontrole de impulsos, facilitando a cessação do tabagismo, abuso de substâncias, e no controle dos quadros de ansiedade, depressão, e insônia, tão comuns nos pacientes que sofrem de dor crônica. Se trata de dispositivos que possuem liberação pela ANVISA, e pela agência reguladora nos Estados Unidos, a FDA, com evidência científica também no tratamento de outras condições relacionadas ao mal funcionamento de circuitos cerebrais, como zumbidos nos ouvidos, tremores e discinesia na doença de Parkinson, reabilitação motora e da fala após acidente vascular cerebral (AVC) e reabilitação cognitiva na doença de Alzheimer.

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