Como é feito o diagnóstico da depressão? O Dr. Andres Kielling, médico psiquiatra, responde:
A depressão é um dos transtornos mentais mais frequentes e é a principal causa de afastamentos no mundo. É importante salientar que nem toda tristeza é depressão; por isso, é fundamental uma avaliação médica cuidadosa. A tristeza é uma manifestação emocional normal em certos contextos e atualmente acredita-se que possua inclusive algumas funções adaptativas. Todavia, ela pode adquirir características patológicas dependendo da intensidade e dos sintomas que a acompanham. A depressão geralmente envolve mais de duas semanas de sofrimento, tristeza, desesperança, ou irritabilidade (no caso de crianças e adolescentes) na maior parte do tempo, e perda de interesse ou de prazer em atividades anteriormente prazerosas. Ela costuma ser acompanhada de alterações no apetite, no sono, na atenção, concentração, memória, energia (lentidão) ou pensamentos de desvalia, de querer “sumir” ou mesmo morrer. Essas mudanças atrapalham a vida, prejudicando o funcionamento social, familiar ou profissional. Como existem outras condições de saúde que podem ser responsáveis por essas manifestações, é importante consultar um médico para descartar outras causas.
O que acontece no corpo de quem sofre de depressão? Andressa de Souza, PhD e neurocientista, explica:
A depressão é um transtorno com diversas manifestações clínicas, cujas causas no corpo humano ainda são motivo de intensas pesquisas. Os sintomas de quem sofre de depressão têm sido correlacionados com alterações anatômicas e químicas em diferentes partes do sistema nervoso, particularmente nas regiões corticais e límbicas do cérebro humano.
Se trata de uma doença que pode ser ocasionada por diversos fatores, como suscetibilidade genética (30-40% dos casos), estresse, ou inflamação. Independente dessa base genética, tem sido bem documentado que o principal fator são os eventos estressores, traumáticos, ambientais e sociais repetidos, que aumentam a vulnerabilidade a padecer desta doença.
A depressão pode também ser manifestação que acompanha outras doenças, como condições neurológicas (como doença de Parkinson, esclerose múltipla, acidentes vasculares cerebrais ou dores crônicas), endócrinas (doença de Cushing ou hipotireoidismo), ou abuso de drogas.
Existem várias teorias que tentam explicar as alterações no corpo de quem sofre de depressão.
Pela teoria das monoaminas, os sintomas ocorrem como resultado de níveis alterados de serotonina, noradrenalina, e dopamina, motivo pelo qual, em alguns pacientes, os antidepressivos que aumentam a disponibilidade destes neurotransmissores no cérebro, ajudam na melhora dos sintomas. No entanto, esta teoria é falha em explicar por que alguns pacientes não respondem, e outros, mesmo com níveis baixos, não experimentam depressão.
Na teoria da depressão induzida por estresse, se postula que mais do que um evento pontual (que também pode desencadear sintomas profundos), pequenos incidentes estressantes, mas repetitivos, constantes, podem levar à exaustão dos mecanismos compensatórios do indivíduo. Esta teoria tem como base as alterações que o estresse causa no sistema hipotalâmico-pituitário-adrenal, que regula a resposta hormonal ao estresse, e a distribuição de energia e recursos à restauração dos sistemas homeostáticos. Existe evidência científica da relação entre tabagismo e estresse materno ( entre outras causas de estresse cedo na vida), e alterações neste sistema.
Outra hipótese, postula deficiência de fatores de crescimento e homeostase neuronal, que podem estar relacionados ao aumento de citocinas inflamatórias, o que ajudaria explicar a relação entre doenças crônicas e quadros de depressão.
Alterações nos ritmos diários, conhecidos como ciclo circadiano (proporção entre sono e vigília), se encontram alterados na depressão. A resposta aos tratamentos costuma ser mais difícil nos pacientes com alterações importantes do sono. Embora não causal, existe uma relação de alterações hormonais, citocinas inflamatórias e moléculas neurotróficas e alterações no sono. A privação do sono afeta os sistemas neuronais responsáveis pela regulação emocional (amígdala cerebral, córtex pré frontal). Também se encontra relacionado com níveis baixos de melatonina, de produção de dopamina, serotonina, e as projeções cerebrais.
Uma nova hipótese, observa que a depressão cursa com alterações no balanço entre os sistemas excitatórios e inibitórios do cérebro, representados pelos seus principais neurotransmissores, o GABA e o Glutamato. Esta hipótese é reforçada pela boa resposta que alguns pacientes apresentam aos tratamentos que estimulam as vias excitatórios do Glutamato, como a memantina e a cetamina, e a estimulação cerebral não invasiva, com corrente elétrica (não convulsiva), ou magnética. Estudos de ressonância magnética funcional mostraram que pacientes com alterações na conectividade frontal-estriado e límbica tiveram maior resposta à estimulação magnética transcraniana repetida.
Outros sistemas envolvidos ajudam a entender sintomas associados: o sistema colinérgico, que é relevante no processamento sensitivo e emocional, e fixação da memória, pode estar alterado também. Os sistemas de histamina podem estar prejudicados, sendo eles relevantes para se manter acordado, o que explicaria a sonolência excessiva de alguns pacientes.
Como identificar quem está em risco de cometer suicídio? O Dr. Cristiano Belém da Silva explica sinais para estar atentos
Suicídio é um ato deliberado executado pelo próprio individuo, cuja intenção é a morte (seja direta ou indiretamente). Envolve uma sequência que vai desde o pensamento, o planejamento, a comunicação das intenções a determinadas pessoas e o comportamento em si (as tentativas e eventualmente a execução do ato). Os dois principais fatores de risco para tentativa de suicídio são tentativa de suicídio prévia e presença de doença mental (tais como depressão, bipolaridade, dependência de álcool ou drogas ilícitas, transtornos de personalidade e esquizofrenia). Ideias de suicídio podem aparecer na forma de sentimentos de desesperança, desamparo ou desespero, misturadas a impulsividade e a comportamentos de automutilação. Desemprego, problemas financeiros e solidão aumentam o risco de suicídio.
A grande maioria daqueles que pensam em se matar comunica a intenção a pessoas próximas. Por isso, a manifestação da vontade de morrer deve ser levada a sério sempre.
Entre jovens e adolescentes, o comportamento suicida está relacionado com humor depressivo, abuso de substâncias, problemas emocionais, familiares, sociais, rejeição familiar, negligência, além de abuso físico e sexual na infância. Familiares, amigos, profissionais da saúde e da educação devem estar atentos à piora no desempenho escolar, aos conflitos familiares, à ideação suicida, ao sentimento de desesperança e à falta de apoio social.
Entre idosos, perda de parentes, solidão, doenças degenerativas ou dolorosas, ou sensação de ser um peso para os outros podem desencadear comportamentos suicidas.
A existência de outras doenças graves está relacionada também ao risco de depressão e suicidio: câncer, HIV, esclerose múltipla, Parkinson, Huntington, epilepsia, insuficiência cardíaca, AVC, doença pulmonar e lúpus eritematoso sistêmico.
Sermos proativos como sociedade é fundamental. Quanto mais fortes forem os laços sociais e menor for o estigma associado ao assunto, maior serão as chances de identificar os riscos e de dar o suporte necessário a tempo.
Mitos sobre o comportamento suicida que devemos desconstruir:
● “O suicídio é exercer o livre arbítrio.” Na verdade, o suicida sofre de uma doença que altera sua percepção de realidade e interfere em sua livre escolha. Após o tratamento efetivo, o desejo de morrer desaparece.
● “O pensamento suicida dura para toda a vida”. Não é o que observamos na prática. O tratamento adequado diminui significativamente os sintomas depressivos– incluindo aqui as ideias suicidas – da maioria das pessoas.
● “Quem fala, não se mata”. O que observamos na prática é justamente o contrário. A maioria dos suicidas fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte antes de cometer suicídio.
● “Quem sobrevive a uma tentativa de suicídio está fora de perigo”. Infelizmente, as semanas após uma tentativa são muito críticas e delicadas para o paciente. Dizer isso seria o equivalente a dizer que quem tem infarto cardíaco está fora de perigo depois. Tentativas prévias de suicídio são um fator de risco para novas tentativas, assim como quem infarta uma vez tem risco maior de infartar novamente.
● “Falar sobre suicídio aumenta o risco de acontecer”. Conversar sobre pensamentos ruins pode aliviar angústias e sofrimento e abrir as portas para conduzir o paciente para um tratamento adequado. Portanto, falar sobre suicídio ajudanda a reduzir o estigma em torno da depressão e as suas consequências trágicas.
Quais tratamentos existem? O Dr. Andres Kielling, responde:
Para definir o melhor tratamento para cada paciente, é muito importante uma avaliação com especialista e o diagnóstico correto. Cada caso é único e não existe uma proposta terapêutica que funcione sempre para todos. Nos casos de risco aumentado de suicídio, a abordagem verbal pode ser tão importante quanto a medicação, pois faz com que o paciente se sinta aliviado, acolhido e valorizado, criando uma aliança terapêutica com o profissional. Caso as ideias suicidas persistam, a internação psiquiátrica é recomendada.
O arsenal terapêutico para o tratamento da depressão inclui psicoterapias, atividade física, medicamentos, estimulação magnética transcraniana e eletroconvulsoterapia.
Psicoterapia
Os tratamentos psicoterapêuticos de primeira linha para o manejo agudo da depressão são a terapia cognitivo-comportamental, a terapia interpessoal e a ativação comportamental. A maioria das evidências científicas para esses tratamentos preconiza sessões presenciais individuais ou em grupo (geralmente 12 a 16 sessões fornecidas ao longo de aproximadamente 4 meses).
Atividade Física
A atividade física vigorosa durante 45 minutos (3 vezes por semana) é geralmente recomendada para os casos menos sintomáticos (ou para os casos inicialmente mais sintomáticos em que já houve alguma melhora).
Medicamentos antidepressivos
Os principais tratamentos medicamentosos de primeira linha para o manejo agudo da depressão incluem todos os antidepressivos aprovados para venda no Brasil. Dado que existem dezenas de antidepressivos disponíveis no mercado, existem nuances importantes envolvendo eficácia, perfil de efeitos colaterais e segurança para orientar quais antidepressivos devem ser considerados em cada caso individualmente.
Tratamento com Estimulação Magnética Transcraniana (EMT)
A EMT é um tratamento eficaz, com aprovação pelas agências reguladoras dos Estados Unidos (FDA) e do Brasil (ANVISA e CFM). Como contraste aos tratamentos com medicamentos, que agem no nível molecular, a estimulação cerebral age em circuitos cerebrais específicos. Ambos não são tratamentos excludentes; pelo contrário, costumam agir de modo sinérgico. A EMT está indicada nos casos de pacientes com resposta lenta aos medicamentos que já tenham tentado pelo menos dois tipos diferentes de fármacos. É segura e tem efeitos adversos mínimos (dor de cabeça leve ou desconforto no couro cabeludo).
Tratamento com Eletroconvulsoterapia (ECT)
A ECT é um tratamento altamente eficaz para os quadros mais graves, resistentes aos tratamentos previamente citados. Deve ser feita em meio hospitalar, sob anestesia geral, mas reduz o risco de internação, com altas taxas de resposta e de remissão. Como efeitos adversos, pode gerar desorientação e alterações no aprendizado ou na memória, ambos transitórios.
Referências
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